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19/02/2015

Escassez de água desafia agricultores a serem mais eficientes e evitarem desperdício na lavouras

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A crise hídrica que ameaça o abastecimento de água em vários Estados também pressiona a agricultura. Destino de mais da metade da água captada em mananciais no país, a irrigação necessária para elevar a oferta de alimentos e, em períodos de estiagem, diminuir os riscos de quebra de safra, é cada vez mais desafiada para ser eficiente no uso da água e evitar desperdícios.
 
Mesmo beneficiados por três anos sem seca, os agricultores gaúchos, escaldados por períodos anteriores de falta de chuva e os consequentes conflitos quando a água utilizada para abastecer plantações também é escassa nas cidades, vêm trilhando o caminho da parcimônia no uso da água, sem comprometer a produtividade. O melhor exemplo vem do cultivo do arroz, cultura tradicionalmente irrigada por inundação e que se espalha por 1,1 milhão de hectares no Estado.
 
Dados do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) mostram que, na década de 1970, os orizicultores chegavam a usar 4 mil litros de água durante todo o ciclo de uma lavoura para produzir um quilo do grão. Com o avanço dos estudos e pesquisas, agora a média é de 1,25 mil litros e a meta é chegar a mil litros, diz o pesquisador do Irga Elio Marcolin, especializado no tema.
 
— Os produtores são conscientes dessa questão da água e sabem quanto isso é importante. Também há outros benefícios porque, se diminuir a captação de água, gasta menos com energia — lembra Marcolin, referindo-se à elevação das tarifas de luz, insumo essencial para a irrigação.


Economia de olho na próxima safra
 
Uma das formas de diminuir a captação de água, explica Marcolin, é o nivelamento das áreas, o que permite manter uma lâmina menor do líquido nas lavouras. Além de diminuir a fuga, reduz a perda por evaporação.
 
Hoje, estima o especialista, pelo menos 250 mil hectares no Estado são nivelados. Dez anos atrás, nem metade disso, calcula Marcolin, ressaltando que a adoção da técnica também depende das características do terreno.
 
Outra opção que vem sendo adotada por produtores é o reúso. Com esta técnica, a água que entra na lavoura, ao retornar a um ponto mais baixo do terreno, é novamente bombeada para as partes mais altas. Sendo reaproveitada, não é preciso captar mais do manancial e há, ainda, economia de energia pelo menor trajeto que a água percorre.
 
A racionalização do uso é necessária mesmo para quem tem barragens particulares e consegue irrigar por gravidade. Economizar, observa Marcolin, pode ser a garantia de ter água na safra seguinte caso uma diminuição da chuva prejudique a reposição de água do reservatório.
 
O reúso da água vem ajudando a diminuir custos, conta o agricultor Jorge Luiz Dutra dos Santos, que planta 260 hectares de arroz em Santo Antônio da Patrulha e utiliza água do Rio Gravataí — também aproveitado para abastecimento urbano. Em dois anos, o produtor conseguiu reduzir pela metade a energia necessária para o bombeio e, também, o volume captado.
 
— O reúso é não desperdiçar, não colocar água fora — avalia o agricultor.


Esforço pela racionalização
Manancial onde é captada água para abastecer cerca de 650 mil pessoas na Grande Porto Alegre, o Rio Gravataí é o epicentro de preocupações dos especialistas do Estado por também ter grande demanda para a irrigação de lavouras de arroz.
 
Signatários de um acordo que garante o desligamento das bombas quando o nível do rio chega a um patamar considerado crítico, os orizicultores da região apostam na gestão dos recursos hídricos e em alternativas de manejo das lavouras para aliviar a pressões sobre o rio.
 
— O produtor não quer desperdiçar água. Há uma consciência muito diferente de 10 anos atrás — diz o engenheiro agrícola Maurício Cardoso Barcellos, agricultor em Glorinha e ex-integrante do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Gravataí.
 
A lavoura de 160 hectares de Barcellos é abastecida tanto pela água do rio quanto de uma barragem na propriedade. O uso do Gravataí ocorre mais nos meses de implantação da lavoura, quando o rio está mais cheio. Depois, no auge do verão, quando também cresce a demanda nas cidades, a maior parte da água usada é do reservatório próprio.
 
Para racionalizar o uso, a sistematização da lavoura ajuda a evitar desníveis no terreno, o que confere maior uniformidade da lâmina d'água no campo, evitando perdas e necessidade de mais captação. Manutenção dos canais de irrigação limpos e cuidados com vazamentos e transbordamentos também contribuem para a eficiência. O próximo passo é investir no reúso da água.
 
— Há alguns anos, colocava-se água até perto de começar a colheita. Hoje, corta-se a irrigação de 25 a 30 dias antes. É mais uma atitude de racionalização do uso — destaca Barcellos.
 
Para estimular o uso consciente da água, o Ministério da Agricultura lançou na semana passada um site com informações sobre os efeitos da crise hídrica no campo e informações sobre iniciativas que podem ajudar os produtores a economizarem mais.


Planejar, o foco nas culturas de sequeiro
 
Nas áreas de culturas de sequeiro, a irrigação passou a ser mais incentivada no Estado a partir de 2012, após uma seca severa. Uso de cultivares de ciclo mais curto, manejo do solo e planejamento da irrigação são parte da receita para racionalizar o uso da água, pontua o professor de Engenharia Rural da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Reimar Carlesso.
 
Na hora de molhar a lavoura, chuva e aplicações com volumes de 14 a 18 milímetros são mais eficientes do que irrigar com 20 a 25 milímetros, ensina Carlesso.
 
— Assim, melhora a capacidade de fazer a água ingressar no solo — diz o especialista, ressaltando que, se precisar captar menos água, a conta de energia ficará menor.
 
Segundo Carlesso, cerca de dois terços do solo da área de grãos do norte do Estado estão compactada pela adoção incompleta do plantio direto, o que reduz a capacidade de absorver água. Logo, os efeitos da seca são sentidos mais cedo, e a irrigação fica menos eficiente.
 
— A irrigação de culturas no Planalto merece acompanhamento porque está aumentando muito o número de irrigantes. Por enquanto, não há, mas pode ocorrer conflito — diz o diretor do Departamento de Recursos Hídricos do Estado, Fernando Meirelles.
 
Ligado à Federação da Agricultura do Estado (Farsul), o Clube da Irrigação busca mais eficiência no uso da água. Com auxílio do Sistema Irriga, criado pela UFSM, é estimulado o uso de aspersores que distribuam melhor a água na lavoura a partir de dados de estações metereológicas que indicam o momento e a quantidade necessária conforme a fase de cada cultivo. Assim, concilia-se mais produtividade com economia de água e luz.


Fonte: Zero Hora